Blog do Carpinejar

O PIANO DA SALA

Arte de Hannah Hoch

Não fica com dó ao enxergar um piano parado, totalmente sem uso, num apartamento?
 
Não sente um remorso? Não considera um desperdício?
 
Tão caro e tão abandonado. Tão valioso e tão calado.
 
O piano no canto, como uma lareira em eterno verão. De vez em quando, crianças abrem sua tampa e desafinam as teclas. De vez em quando, uma visita rompe sua solidão, sopra o pó da manta e dedilha a trilha da Pantera Cor-de-Rosa. E é só.
 
Nada mais. Não existem recitais, saraus, festas. Nenhuma musa se debruçará na cauda para cantar Cole Porter. Nenhum estardalhaço é reservado àquele hóspede negro, brilhante e silencioso na sala.
 
Não bate ânsia de telefonar para os Mensageiros da Caridade e encaminhar o instrumento a um jovem concertista?
 
Pois é, somos diferentes. Eu não sofro nenhum problema com pianos abandonados. Não farei denúncia. Não abrirei a boca. Não subirei no púlpito para pregar sermão contra o luxo e a favor da necessidade.
 
Pelo contrário, tenho cócegas de ternura. É um indício de lealdade.
 
Sempre confiei em mulher que mantém um piano e não é pianista.
 
Sempre confiei. Será fiel pela vida inteira.
 
Não julgará aparências, oferecerá toda paciência para acolher ritmos distintos, acomodará o antigo e o novo, alheia à pressão do conforto.
 
Deve ter um moletom surrado no fundo do armário, um baú com as sapatilhas da infância e uma gaveta abarrotada de cartas de amor.
 
Uma mulher que conserva o piano da família não se desfaz do artesanato da infância. Respeita as histórias que vieram antes dela, reza na hora de dormir, toma café engolindo a fumaça, olha lentamente a janela de manhã para escolher a roupa.
 
Reserva espaço ao que não tem serventia, reserva um pouco do seu território para aquilo que não domina.
 
Não glorifica o que produz sentido imediato. Não força talentos e façanhas. Defende o mistério e aceita as incompreensões.
 
Tem noção de que nem tudo entra pela porta, que uma janela tem seu valor.
 
Não despreza a herança dos pais, não queima a bagagem extraviada, não anula as cicatrizes, não renega o que não é aproveitado, não usa somente o que interessa.
 
Não se mostrará prática, objetiva e indiferente, muito menos jogará fora o que não é do seu tempo e que não nasceu do seu esforço.
 
Não dará ultimato, não ameaçará despejo, não venderá a memória, não vai expor as confidências.
 
Acredita ainda em casar-se e na genealogia do romance.
 
Acredita que um dia aprenderá música. Ou seu filho. Ou seu neto.
 
Um piano em casa é esperança.
 



Publicado no jornal Zero Hora
Coluna semanal, p. 2, 19/02/2013
Porto Alegre (RS), Edição N° 17348

Fale comigo

Contrate
agora uma 
palestra

Preencha o formulário para receber um orçamento
personalizado para a sua empresa ou evento.

Termos de uso e politica de privacidade